quarta-feira, 18 de abril de 2018

[imagem @iwitchalice]


Acendo mais um cigarro, escorrego pelo silêncio da casa. Deixo-me ficar por aqui, na lassidão do tempo, sentada no parapeito da noite, a observar uma pestana branca no céu negro. E um sorriso escapa-me a fugir à pergunta: de quem será o desejo?...
... De noite nunca me apetece dormir, fechar o dia. De manhã nunca me apetece começá-lo, sair da cama. Durmo, mas qualquer coisa em mim não sossega e o descanso não poisa na alma. Não que ande inquieta, não ando, há só uma sensação de algo inacabado, turvo, estranho. Algo por fazer, já desfeito. Estes dias passaram-se bem, não me prendi de ansiedades, não me asfixiei de pensamentos, incertezas ou certezas, simplesmente deixei ir - mas não sei sequer o quê, o tempo talvez; os dias, sei lá. Há um amargo desencanto em reconhecer o passado como tempo encantado, aperceber-me das mudanças, não esperar nada. Com tudo o que isso tem de bom e de vazio. Como aceitar uma perda, baixar os braços, e deixar que a terra engula o amor que escorre da pele. Como uma força que nos abandona e nos deixa à deriva, demasiado leves, demasiado ausentes de tudo.

10 comentários:

  1. Não vejas o passado com os olhos com que vês o presente, na altura não eras a pessoa que és hoje.

    Bom dia, Vi:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois não, não era, e não é isso que dá um certo encanto ao passado? Vermo-nos na altura em que ainda algumas desilusões não nos tinham arrasado a esperança na vida? Eu era mais alegre, com um sentido de humor sempre à tona, muito mais leve sabes? Agora tudo é mais baço, já pouco ou nada se espera... a única coisa boa é que também já não nos desiludimos tanto ;)) e a vida leva-se na mesma.

      Bom dia, Legionário :)

      Eliminar
    2. Gostei tanto da expressão "uma pestana branca no céu negro", que estava capaz de lhe dedicar um poema de um livro velho que ando a ler.

      Que diz? :)

      Eliminar
    3. Legionário, já o agarrei ;))
      Mando-te outro :)

      Eliminar
    4. Caríssimo Impontual, digo apenas que gosto de livros velhos e que estou certa que escolheria um poema que fizesse tão singela expressão ganhar outra dimensão. Mas diga-me, Sr Impontual, é só a mim que a lua, finíssima na sua curva perfeita, parece uma pestana perdida de desejo por desejar? Algum deus que se esqueceu de a guardar na algibeira depois de segredar o desejo secreto?

      (reparo agora que parece que a noite nos deixou em sintonia, gostamos os dois de partilhar o vício do fumo com a escuridão enquanto se contemplam os céus)

      Eliminar
  2. Sabes, Vi., eu ando a praticar a arte de não me importar e aceitar o que a vida tem para oferecer-me. Assim, pelo menos, a vida não é uma desilusão constante. E o meu coração fica mais sossegado, ainda que vazio.

    Um beijo nesse teu coração. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sabes, também eu, ando à espera de nada esperar :)) e já não espero grande coisa, é um facto. Assim tudo, ou quase, é uma benção ;)
      E olha, se há coisa que o teu coração por muito que se esforce nunca conseguirá, é ser vazio. E isso, minha querida Alaska é bom. És uma alma grande e doce, dorida às vezes mas nunca amarga, isso é um dom. Hás-de ser para sempre menina, sabias?
      Beijo para ti :)

      Eliminar
    2. Oh que linda que tu és, Vi. Muito obrigada. Vou guardar essas tuas palavras bem pertinho do meu coração. Também gosto de ti. :)

      Eliminar
    3. Guarda, e nunca te esqueças :))

      Eliminar